Resenha - Filme Negócio das Arábias

Sinopse: "Durante a recessão nos Estados Unidos, um homem de negócios falido (Tom Hanks) procura recuperar suas perdas financeiras viajando para a Arábia Saudita, a fim de vender sua ideia 'genial' para um monarca que está construindo um enorme complexo no meio do deserto."
Alan Clay já foi um homem de sucesso, conquistou muitos feitos, e um deles foi levar a grande empresa de bicicletas na qual trabalhava para a China. Tal jogada, que parecia certeira na época, se provou um tiro pela culatra, uma vez que os chineses copiaram a sua forma de fabricação e venderam as bikes mais baratas para o resto do mundo, resultando na quebra do empreendimento e na demissão de centenas de funcionários.
 
Falido, divorciado, sem condições de pagar a faculdade da filha, tendo ficado mal visto no mercado internacional e com o peso de tirar o ganha pão de diversas famílias, Alan tenta se reerguer profissional e pessoalmente, e vê na Arábia Saudita a sua grande oportunidade.
 
O rei está construindo um complexo de proporções bíblicas no meio do deserto, e precisa de um holograma. Enfrentando a descrença de seus superiores, Alan parte para a Arábia disposto a fazer o que for preciso para fechar esse negócio, trazer o contrato para o seu novo empregador, limpar seu nome e a sua consciência, que está à beira do colapso.
 
Querem saber mais? Então corram para assistir ao filme.

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Em Negócio das Arábias - adaptação cinematográfica do livro Um Holograma para o Rei, de Dave Eggers, publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras -, Tom Hanks é Alan Clay, o representante de uma empresa de TI que tenta escapar do fundo do poço. Fica visível que o protagonista está apostando todas as suas fichas nessa oportunidade que surgiu na Arábia Saudita, e precisa que ela dê certo não só para levar o retorno positivo aos seus superiores mas, principalmente, para continuar sobrevivendo.
 
Além de ter fracassado no emprego anterior, perdendo um importante cargo e ficando mal visto no mercado, Alan e está atolado de dívidas e se sente culpado pelo fim de seu casamento, e mais ainda por não ter condições de pagar a faculdade da filha. Seu pai também não o ajuda a se sentir melhor, pois quando ele o procura em busca de conforto, ou ao menos para ter uma conversa que o faça se esquecer de suas dificuldades, o pai aparenta ser completamente indiferente ao seu sofrimento e ressalta seus erros como se o filho os estivesse superado.
 
Alan está à beira da loucura, na ponta do precipício, prestes a saltar. Isso fica bastante evidente nas cenas em que ele está na montanha-russa. Em nenhum momento do filme o personagem de fato anda no brinquedo, isso nos é mostrado para representar seu estado psicológico e emocional. Ele se sente sem freio, perdendo o controle, e esta foi uma ótima sacada da produção para nos fazer entender como anda seu estado interior.
 
E há algo de interessante no nome do protagonista, que reflete a sua situação, que é o seu sobrenome: "Clay", que significa "Argila" em inglês. A argila é um material maleável, que pode ser moldado de diferentes formas e endurecido. Ela pode se tornar um vaso que pode se quebrar com uma simples queda, assim como pode se transformar em algo mais forte e duradouro, tudo dependendo de como for calcada. Assim é Alan, um vaso de argila prestes a se espatifar, cheio de rachaduras, que precisa ser desfeito e remendado.
 
Em meio ao desenrolar de sua missão conhecemos outros personagens, como Yousef, o motorista que sempre o leva para os lugares; Dra. Zahra Hakem, e mais alguns de papéis menos relevantes, como a equipe do protagonista. Isso pode até ser chocante, pelo enfoque que é dado à venda do holograma para o rei, então se espera que a equipe que o acompanhou até a Arábia tenha uma participação maior, porém eles ficam muito apagados, porque a verdadeira trama da obra tem como cerne o próprio Alan. O holograma é apenas uma fachada para contar a história de um homem que se encontra no início da meia idade e que sente que não chegou a lugar nenhum na vida, e que tenta, com todas as forças, mudar esse panorama.
 
Podemos ver esse conflito pessoal do protagonista mais claramente através dos demais personagens. A mulher dinamarquesa, que quer apenas ter uma noite de prazer com ele, representa a vida desregrada que Alan nunca teve. Ela é como um desejo interior seu bradando para ele jogar tudo para o alto e apenas curtir um pouco. Yousef simboliza o seu oposto, enquanto o protagonista luta para manter tudo sob controle, o amigo deixa a vida lhe levar e só se preocupa com seus problemas quando a gravidade está alta demais.
 
E Zahra, por fim, é exatamente o equilíbrio que Alan procura, alguém centrada, que sabe conduzir as adversidades, mesmo que se fragilize de vez em quando. É sua aparente segurança em estar no comando de sua própria vida que primeiro conquista a atenção do protagonista, e assim eles vão se aproximando até desenvolverem um relacionamento que é construído passo a passo, com um alicerce. A partir daí o roteiro sofre um plot twist e quase vira uma desventura de amor como outra qualquer, relevando todos os demais empecilhos que tanto tiraram o sono de Alan. De repente é como se para ficar bem, tudo o que faltava a Alan era se apaixonar.
 
Isso agrega um valor utópico ao longa e meio que desconstrói tudo o que foi trabalhado até então, pois por quase todo o filme a narrativa é conduzida como se a grande vitória do protagonista se desse ao Clay conseguir superar seu passado através do fechamento do contrato, ou até mesmo por reconhecer que ainda poderia conquistar coisas boas independente do seu histórico e do que acontecesse na Arábia, e no final passa a mensagem de que, não importa quão ruim esteja a nossa situação, se encontrarmos alguém para amarmos, todos os nossos problemas serão resolvidos.

Nesse sentido, a história se mostrou decepcionante para mim, que esperei ansiosamente por uma resolução dos dilemas de Alan ou ao menos por uma atenção maior quanto ao desfecho da venda do holograma. Entretanto, deixo aqui a minha recomendação para quem tem interesse em mergulhar na obscuridade dos medos e inseguranças de alguém que, pelo visto, apenas precisava ser salvo pelo amor.

Título original: A Hologram for the King
Roteiro: Dave Eggers e Tom Tykwer
Direção: Tom Tykwer
98 minutos
Nota: 2

5 comentários

  1. Eu amo os filmes que o Tom Hanks faz!
    Mas esse parece que não foi tão bom.
    Nunca ouvi falar do livro nem do filme. Pena que foi decepcionante!

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  2. Oi Laplace, mesmo que o filme tenha sido um pouco decepcionante pra ti ao final é um filme com Tom Hanks e só isso deve valer a pena conferir rsrs. Fiquei curiosa sobre a história e anotei a dica ;)

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  3. Laplace!
    Será que não há um pouco de romantismo em seu coração?kkk
    Achei que tinha gostado do filme, afinal, fez uma resenha super, hiper detalhada e que triste ter ficado decepcionado.
    Por vezes precisamos apenas mesmo do amor para resolver nossos problemas.
    Fato é que, como amo o Tom Hanks, quero conferir o filme, embora nem tenha lido o livro.
    “Sê humilde para evitar o orgulho, mas voa alto para alcançar a sabedoria.” (Santo Agostinho)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE MAIO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  4. Olá Laplace ;)
    Sou fã do Tom Hanks, mas já vi críticas ruins e desanimei pra ver esse filme.
    Só deu vontade de ver por causa dessa mensagem, que como você disse não importa como esteja nossa situação, nossos problemas serão mais facilmente resolvidos quando encontrarmos alguém para amarmos S2

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  5. Antes o filme não tinha me interessado, e ainda não tenho vontade pois sei que irei acabar me decepcionando muito com ele.

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