Resenha - As mil noites

Resenha - As mil noites
Sinopse: "Clássico da literatura universal, as histórias de As mil e uma noites estão no imaginário de todos — do Oriente ao Ocidente. É impossível que alguém nunca tenha ouvido falar sobre Ali Babá e seus quarenta ladrões, ou sobre Aladim e o gênio da lâmpada. Ou sobre Sherazade, a mulher sagaz e inteligente que se casou com um homem cruel, e, por mil e uma noites, driblou a morte narrando contos de amor e ódio, medo e paixão, capazes de dobrar até mesmo um rei. Em As mil noites, a história se repete, mas com algumas diferenças… Quando Lo-Melkhiin chega àquela aldeia — após ter matado trezentas noivas —, a garota sabe que o rei desejará desposar a menina mais bela: sua irmã. Desesperada para salvar a irmã da morte certa, ela faz de tudo para ser levada para o palácio em seu lugar. A corte de Lo-Melkhiin é um local perigoso e cheio de beleza: intricadas estátuas com olhos assombrados habitam os jardins e fios da mais fina seda são usados para tecer vestidos elegantes. Mas a morte está à espreita, e ela olha para tudo como se fosse a última vez. Porém, uma estranha magia parece fluir entre a garota e o rei, e noite após noite Lo-Melkhiin vai até seu quarto para ouvir suas histórias; e dia após dia, ela continua viva. Encontrando poder nas histórias que conta todas as noites, suas palavras parecem ganhar vida própria. Coisas pequenas, a princípio: um vestido de seu lar, uma visão de sua irmã. Logo, ela sonha com uma magia muito mais terrível, poderosa o suficiente para salvar um rei."
Lo-Melkhiin era um poderoso rei, amado e respeitado por seu povo. Destemido, frequentemente fazia incursões de caça, onde voltava incólume e com lindas peles e jubas de leão para presentear a mãe, mas não naquele dia.

Pego de surpresa, Lo-Melkhiin foi dominado por um demônio, que se valeu de suas fraquezas para controlá-lo, banindo-o para um canto escuro de sua própria mente.

Apesar das suspeitas, nunca ninguém descobriu o que havia de fato ocorrido com o rei e, para não cair em desgraça, não o contrariavam. O demônio que habitava o corpo do homem estava sedento por poder, e uma ótima forma de obtê-lo era matando e consumindo o medo e o desespero de suas vítimas. E foi assim que uma tradição se criou: Lo-Melkhiin passou a visitar vilarejo por vilarejo e, em cada um deles, levava consigo uma noiva, que matava na noite de núpcias ou algumas após.

Havia chegado o momento de vossa graça visitar o uádi da plebeia, aquela que não tem nome e que era apaixonada por sua irmã, a quem tinha como confidente e melhor amiga.

Ela sabia que assim que Lo-Melkhiin visse a sua irmã, a levaria para seu qsar. Ela não podia permitir que a irmã morresse. Sendo assim, bolou um plano com a mãe de sua irmã e se vestiu da maneira mais formosa. Sua ideia funcionou, pois Lo-Melkhiin a escolheu. Sua irmã se desesperou e jurou que criaria um santuário para ela e a tornaria uma deusa menor, por tê-la salvo. E, enquanto ela se mantivesse viva, também evitaria a morte de outras tantas inocentes. E essa se tornou a sua meta, não morrer.

Mal sabia ela que faria muito mais. Tendo tocado diversos corações e inspirado muitas vidas, seu reinado iria provar da força das orações e da compaixão para com o seu opressor mais cruel.

Querem saber o que vai acontecer? Então leiam!

***

Meu interesse por As mil noites surgiu de um post que li no próprio blog da Editora Intrínseca, feito pela Fabiane Pereira, que elencava este livro como uma leitura feminista, e eu fiquei curiosa para saber como a autora tinha inserido esta temática em uma releitura de um clássico tão famoso.

O que contribuiu para eu escolher esta obra foi o fato de eu ter amado A rebelde do Deserto, que igualmente possui uma narrativa que se passa em terras áridas e perigosas e que tem como protagonista uma jovem forte, inteligente e à frente das mulheres do seu povoado.

Como não li As mil e uma noites, não tinha a mínima ideia do que esperar desse exemplar, só imaginei que fosse me deparar com diversas histórias contadas pela narradora, como uma artimanha para se manter viva, mas não foi bem isso o que aconteceu.

Escrito em primeira pessoa, com capítulos intercalados, logo no início temos o testemunho do demônio e de como ele capturou Lo-Melkhiin, para em seguida conhecermos um pouco sobre a menina que transformaria a vida de todo um deserto.

Fiquei impressionada com a beleza da cultura apresentada. Não sei até que ponto se trata de uma construção da autora, ou se já existia no original, mas a aldeia de nossa heroína dispõe de algumas peculiaridades.

Cada família possui seu deus menor, que se trata de alguma pessoa que fez algo de importante na vida e passou a ser venerado após a morte, a quem se reza e se leva oferendas. Cada núcleo familiar tem a sua língua própria e antiga, que utilizam para transmitirem segredos entre gerações e para entoar cânticos tradicionais. Todos sabem sobreviver no deserto e têm ciência de que precisam um dos outros para se manterem vivos.

Nesta trama ainda há a presença dos céticos, que diferente dos sacerdotes, utilizam seus dias apenas para pensar, questionar e discutir suas teorias. Eles poderiam ser comparados aos grandes filósofos gregos, e achei incrível como ciência e religião conviviam em harmonia.

Por se passar em tempos antigos, achei curioso o fato de que muitas coisas eles não conheciam, a ponto de temerem uma tempestade ou se maravilharem com uma chuva de estrelas cadentes. Mesmo assim, não deixavam de ser sábios e bondosos. Todos esses elementos, construídos com maestria, fizeram com que eu conseguisse mergulhar numa áurea de magia que permeava o enredo.

Uma curiosidade em relação a essa escrita é que os personagens não têm nomes, com exceção do rei e de alguns dos seus súditos. Isso pode causar estranheza em alguns, mas não tive dificuldades de ler nem de entender por conta disso.

Quanto à trama em si, confesso que achei meio confusa. Não compreendi bem por que a autora optou por dar poderes à protagonista e nem o porquê dela ser tão abnegada, uma qualidade que acho irreal nos dias de hoje.

Pelo que percebi, o foco do texto pareceu se assentar na ideia de que todos somos seres duais, bons, mas igualmente maus, dependendo das nossas ações e escolhas que passamos a tomar, e que ninguém está livre de se tornar um monstro.

Uma coisa interessante é, que diferente da maioria dos livros, não houve romance nessa história, e o demônio não foi salvo pelo amor, mas sim por uma jovem mulher que descobriu a sua força e não se calou e nem se deixou oprimir frente a um tirano.

Não sei se a autora teve intenção de destacar o poder das orações, mas foi arrepiante presenciar o que elas são capazes, principalmente quando uma nação se junta por uma mesma causa.

Ademais, foi lindo de ver a relação estabelecida entre a plebeia e sua irmã. Quisera eu ter uma conexão dessas com a minha. Era impossível de se enxergar onde começava uma e terminava a outra, a ponto de praticamente dividirem até as suas mães.

Quanto ao final, foi cheio de ação e de esperanças.

As mil noites foi uma grata surpresa. Uma leitura interessante e mágica, muito poética, que nos mostra que tudo na vida tem o seu preço e que me conquistou. Recomendo.

As mil noites - E. K. Johnston
Editora Intrínseca
320 páginas
Comprar: Saraiva / Amazon
 
Nota 4

11 comentários

  1. Nunca li aquela história de As mil e uma noites, mas de uns tempos pra cá venho tendo vontade. Esse me deixou curiosa por causa de A rebelde do Deserto também. Depois de ver o que falaram daquele, quando vi esse me deixou curiosa e com vontade de ler. Ele parece ser bem interessante mesmo. E achei legal que não tenha um romance ali, que seja mais uma história centrada na personagem e na força dela. Acaba diferenciando e com certeza inspira. Gostaria de ler pra ver como é direitinho ^^

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  2. Mi!
    como gosto de releituras dos originais, gostaria de ler esse livro, principalmente porque nos dá a possibilidade de conhecer um pouco da realidade daqueles povos antigos e de suas crenças.
    Achei também que a autora iria enveredar pelos contos de Sherazade que encantaram o Rei e não a fez morrer, mas se ela enveredou para o lado da força feminina, fiquei intrigada...
    “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.” (Sócrates)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de JANEIRO dos nacionais, livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  3. Estou curtindo demais ler algumas releituras.
    As mil noites, já está na minha listinha de desejado e espero ler em breve <3
    Apesar de a história ser um pouquinho confusa em algumas partes, ainda estou bem animada.
    Parece ser bem mágica a história mesmo.
    Fiquei ainda mais interessada, depois de ler sua resenha Mi :)
    Beijos,
    Caroline Garcia

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  4. Oi Mirelle, olha vou te contar um coisa que é pura verdade. A sua resenha foi a primeira que me fez querer ler esse livro, e olha que já li várias hem. Acho que vou dar uma chance para a obra.
    E ah, estou com o livro A Rebelde do Deserto e espero gostar também.
    Beijos
    [SORTEIO] Aniversário de 1 Ano: Livro - Perdida
    Quanto Mais Livros Melhor

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  5. Uau.
    Também não li o original. O fato de não ter romance e ter algo empoderado, me chamou muita atenção.
    Espero ter a oportunidade de ler :)

    Abraços, Isis

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  6. Nossa amei. Ele vai pra lista e vai galgar posições d cara. Temática feminista, ausência d romance e novas culturas me fazem querer ler o livro tipo... Agora? Kkkkk Adorei a resenha!!!

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  7. Olá, como adoro releituras já adicionei o livro na listinha. Amo livros que retratam o oriente médio e sua densa cultura, espero que o livro seja bom, beijos.

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  8. Oi, Mi!
    Quero muito ler esse livro, pois esse tema é fascinante. Também quero ler A Rebelde do Deserto! Ambos na minha lista!
    Amei a resenha. Parabéns.
    Beijos.

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  9. ahhh err...
    a primeira vez que eu ouvi falar desse livro disseram que era uma releitura do mil e uma noites
    mas no mil e uma noites o foco são as histórias (que são ótimas) e não o sultão e as pessoas em torno, vcs precisam ler é ótimo
    a rebelde do deserto é ótimo, mas é um pouco mais a oeste do mil e uma noite
    enfim... bom, pelo menos agora me deu uma vontade de ler amo livros de fantasia

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  10. Vi o livro pela primeira vez no snapchat da Intrínseca, que é muito bom, inclusive. E fiquei super curiosa com a história. Sua resenha conseguiu me deixar ainda mais curiosa. Mas ao mesmo tempo confusa com algumas coisas, como por exemplo, a irmã. Fiquei na dúvida se elas são irmãs só do mesmo pai, se são só irmãs de coração, ou algo assim. Mas creio que essa dúvida vai acabar quando eu ler o livro.

    Abraços :)

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