Resenha - Imperfeitos

Sinopse: "Celestine North vive em uma sociedade que rejeita a imperfeição. Todos aqueles que praticam algum ato julgado como errado são marcados para sempre, excluídos da comunidade, seres não merecedores de compaixão. Por isso, Celestine procura viver uma vida perfeita. Ela é um exemplo de filha e de irmã, é uma aluna excepcional, bem quista por todos do colégio, além do mais, ela namora Art Crevan, filho da autoridade máxima da cidade, o juiz Crevan. Em meio a essa vida perfeita, Celestine se encontra em uma situação incomum, que a faz tomar uma decisão instintiva. Ela faz uma escolha que pode mudar o futuro dela e das pessoas a seu redor. Ela pode ser presa? Ela pode ser marcada? Ela poderá se tornar, do dia para a noite Imperfeita? Nesta distopia deslumbrante, a autora best-seller Cecelia Ahern retrata uma sociedade em que a perfeição é primordial e quem cometer qualquer ato falho será punido. A história de uma jovem que decide tomar uma posição que poderá custar-lhe tudo."
Imaginem um mundo perfeito, em que não existe corrupção, em que os governantes trabalham para o bem do povo e onde aqueles que ousam cometer alguma falha de caráter são punidos.

Dependendo do desvio ético ou moral cometido, os condenados pelo Tribunal são marcados com um grande I, de Imperfeitos, em um local específico do corpo, de acordo com a sua infração, para que sirva de exemplo para a população.

O Imperfeito não é preso, mas passa viver à margem da sociedade, com diversas limitações e tendo que cumprir regras diferenciadas. Um Imperfeito nunca poderá exercer um cargo de poder, nunca poderá ser ajudado por um Perfeito, nunca poderá se reunir com mais de um Imperfeito sem que um Perfeito esteja presente e terá que usar uma braçadeira vermelha, quase como uma segunda pele, para sempre.

Ao contrário dos criminosos, o Imperfeito não recebe uma segunda chance, mesmo que se arrependa dos seus atos, ele permanece Imperfeito para o resto da vida.

É em um mundo assim que Celestine vive. Ela é uma garota Perfeita, que adora seguir as leis, que ama matemática e que tem um pensamento muito lógico e racional em que tudo é preto no branco.

Assim como a maioria, Celestine cresceu aprendendo a repudiar os Imperfeitos e detestava estar no mesmo ambiente que eles. Defensora ferrenha do Governo e do Tribunal, namorava Art, filho do Juiz Crevan, a quem idolatrava. Celestine estava certa de que o Tribunal agia para o bem da comunidade, até presenciar uma cena que fez com que as suas convicções fossem abaladas, fazendo-a questionar tudo no qual ela acreditava.

Dúvidas começaram a invadir os pensamentos da menina, que deixou de ficar satisfeita com as respostas simplórias que lhes eram oferecidas, com um tom de alerta. Mas quem diria que seria a sua lógica a lhe trair e a lhe colocar em perigo.

Ao ajudar um Imperfeito, algo contra as regras, Celestine foi delatada e levada para o Tribunal. Lá, Crevan prometeu ajudá-la a sair impune, desde que corroborasse a versão de que não havia feito o que fez.

As coisas estavam de pernas para o ar no cérebro de Celestine. Nada mais fazia sentido. Para ela permanecer Perfeita teria que mentir, se tornando intimamente uma Imperfeita. Que Tribunal afinal era esse, que julgava as pessoas a seu bel prazer?

Celestine agora precisava decidir de que lado queria ficar. Deveria ela se manter Perfeita, mesmo indo contra todas as suas crenças? Ou seria melhor arcar com as consequências de seus atos, mesmo que elas fossem capazes de destruir todo um futuro traçado?

Querem saber o que vai acontecer? Então leiam!

***

Quando este livro chegou em minhas mãos, bastou eu saber de duas coisas para ter certeza de que ia amá-lo: foi escrito pela Cecelia Ahern e se trata de uma distopia. Pronto, nem precisava perder tempo lendo a sinopse, já me joguei diretamente na primeira página e adorei o que encontrei. De início, fiquei curiosa para saber como Cecelia conseguiria inserir na trama elementos que nos fizessem refletir e que pudessem mudar a nossa maneira de enxergar a vida - como ocorre de costume -, já que esta obra é direcionada ao público jovem - o primeiro que ela escreve -, e, esperava por uma escrita mais leve, diferente de seus romances adultos. Mas não tardou muito para que ela botasse na boca de personagens palavras que mexeriam profundamente comigo.

Narrado em primeira pessoa, por Celestine, conhecemos de imediato a realidade na qual ela vive. Devo confessar que fiquei entusiasmada com o panorama apresentado pela autora. Na atual situação a qual enfrentamos, no Brasil, quem não ia adorar ver os políticos corruptos julgados por seus crimes, marcados e excluídos da sociedade? Tenho certeza de que muitos cuspiriam na cara deles, como os Perfeitos fazem com os Imperfeitos na narrativa. Finalmente teríamos a possibilidade de viver em um local em que o Estado cumpre as suas funções, sem desvio, e preza pelo bem da nação!

No entanto, pimenta nos olhos dos outros é refresco, certo? Porque quando tais regras são aplicadas a outras pessoas, muitas delas que nem conhecemos ou somos íntimas, não nos faz diferença alguma. Mas e quando um amigo nosso é marcado? Uma pessoa que por anos convivemos e que temos certeza de que nunca fez nada de errado? Ou pior, quando nós mesmos, a vida toda, bailamos conforme a música para, em um único deslize, sermos taxados como escória, injusto, não é? Afinal, não somos criminosos, merecemos uma segunda chance, certo?

Foi aí que percebi que este método não funcionaria, nem aqui, nem em nenhum lugar do mundo. E esta é a magia da distopia, nos apresentar um mundo utópico, Perfeito, para percebermos que a Perfeição não só é impossível, como não é saudável. E foi desse modo que Cecelia inseriu um questionamento moral, ético e político, feito de forma magistral, no texto.

Celestine sempre acreditou que o Tribunal fora criado para ajudar, e só se dá conta de que ele não passa de mais uma fonte de poder distorcida, beneficiando apenas poucos, os fortalecendo, enquanto vão incutindo medo na sociedade, a paralisando em doses homeopáticas, quando ela própria é delatada e está prestes a ser julgada por ter cometido um ato que ia contra as regras, mas que estava de acordo com os seus princípios. Desde quando ter compaixão pelo próximo era algo errado de se sentir? Como era possível ser condenada por ter feito algo moralmente certo?

Outras dúvidas também começaram a permear a mente de Celestine: se ela não era uma criminosa, se não ia para a cadeia, por que, se fosse condenada como Imperfeita, receberia um tratamento muito pior do que quem matou uma pessoa? Os Imperfeitos tinham toque de recolher, deviam passar por exames diários feitos por delatores, não podiam comer a mesma comida, e nem ter filhos com outros Imperfeitos, isso quando não ficavam em prisão domiciliar por alguma contravenção realizada. 

Só posso dizer, palmas para a Cecelia ao criar este enredo, pois ficou claro o quanto o medo é uma arma poderosa para se exercer o controle sobre todos, afinal, na medida em que o Governo ensinou a população a abominar os Imperfeitos, os mantinha no cabresto, os obrigando a fazer tudo o que lhes era imposto, caso contrário, sabiam que seriam punidos e se tornariam tudo aquilo o que mais repudiavam.

O pulo do gato na história foi que, no momento em que Celestine foi pura e sincera ao relatar o ocorrido e compartilhar dos seus próprios pensamentos, ocasionou uma confusão e uma quebra de paradigmas entre muitos, porque vários olhavam para aquela menina, doce e inteligente, e não conseguiam correlacionar com um Imperfeito imundo e maldito que criaram em suas cabeças.

Nesse sentido, Celestine se tornou de um lado uma heroína, por fazer o que fez, criando uma revolução entre aqueles que apoiavam os Imperfeitos e queriam a quebra do sistema; e uma grande ameaça entre quem queria que tudo continuasse do jeito que estava.

Foi notável o crescimento da protagonista a cada página. Enquanto no início ela não acreditava no que estava acontecendo consigo e só queria se livrar de qualquer punição, passou a aceitar seu fardo com orgulho e lutar por vingança.

Criei uma empatia imediata por Celestine, que se mostrou uma garota de caráter, forte, cheia de ideais e se tornou o símbolo da luta por dias melhores. Por meio dela, Cecelia também nos fez pensar acerca de, até que ponto seria plausível viver uma vida sem erros, tendo em vista de que são eles que nos fazem crescer e melhorar?

Bom, vocês viram que reflexões são o que não faltam nesse exemplar, mas não posso concluir a resenha sem antes discorrer brevemente sobre os personagens secundários. Quando Celestine foi levada pelo Tribunal, sua família, que inicialmente parecia ser superficial e fútil, se solidificou. A mãe, que vivia becada, feita uma boneca de porcelana, se transformou, em apoio à filha. O pai, nunca a deixou na mão. Só sua irmã, da qual não consegui gostar em nenhum momento, que ficou em cima do muro, ora se mostrando solidária, ora nem aí para o problema que Celestine enfrentava. Art, seu namorado, com quem tinha planos de se casar, sumiu, pois não conseguiu suportar a pressão, bem como os amigos que Celestine achou que tinha. Ela foi encontrar conforto no avô, que sempre foi taxado de louco por acreditar em teorias da conspiração, e em um completo estranho com quem nunca falou, mas que teve a oportunidade de dividir a cela e que prometeu que iria encontrá-la, depois que saísse de lá. Este homem misterioso, a meu ver, deu ensejo para que um futuro romance surja por aí, e foi impossível não gostar dele, já que tudo isso me lembrou muito da trilogia Delírio, outros volumes que tanto amo.

Repleto de ação, com cenas fortes de violência, mostrando o que um Estado tirânico é capaz de fazer para para preservar o poder e calar quem se rebela, Imperfeitos me fez devorá-lo e pedir por mais, muito mais.

Minha única frustração se deu pelo fato de que eu jurava se tratar de um volume único e, quando chequei ao final e vi aquele "Fim" na melhor parte, quase tive um treco e fiquei chupando dedo. Pelo que pesquisei, a continuação, que deve se chamar Perfeitos, tem a previsão de lançamento para 2017 lá fora. Resta saber quando a Novo Conceito irá trazê-la para o nosso deleite.

Imperfeitos aborda uma discussão muito inteligente, sobre até que ponto temos o direito de errar, reconhecer os nossos erros e sermos perdoados por eles para seguirmos em frente mais sábios. Para quem curte este gênero literário, só digo: se entreguem, vocês vão amar!

Imperfeitos - Cecelia Ahern
Livro 01
Série Flawed
Editora Novo Conceito
320 páginas
Comprar: Saraiva / Amazon
Nota 5

7 comentários

  1. Muito bom saber que esse livro é ótimo.
    Não li nenhum livro da Cecilia ainda, apesar de ter 3 dela aqui na estante.
    Estou vendo muitos comentários positivos a respeito de Imperfeitos, assim como o seu, e isso está me deixando bem interessada, confesso.
    Parece ser uma leitura super delicinha, que consegue prender o leitor.
    Já vou colocar na minha listinha e espero poder ler em breve.
    Beijos,
    Caroline Garcia

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  2. Mi!
    É bem como falou, só em ser da Cecília e ser distopia, já mostra que o livro é bom.
    E saber de todos os dilemas morais que a protagonista passa, saber que tem de fazer uma escolha diante de tudo que lhe foi ensinado/imposto e a verdade, deve ser um tremendo drama.
    Já quero ler.
    “Que os sinos natalícios anunciem as boas novas e te tragam um natal abençoado. Boas Festas!”
    (Priscilla Rodighiero)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de DEZEMBRO ESPECIAL livros + BRINDES e 4 ganhadores, participem!

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  3. Oi Mirelle!

    Fico muito feliz de saber que o livro é tudo o que eu imaginei!
    Sou fã da autora e amo seus romances, mas confesso que fiquei com o pé atrás qdo vi que este era uma distopia apesar de amar o gênero.

    Ler sua resenha só me deixou mais curiosa para conferir mais esse sucesso!
    Bjo bjo^^

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  4. Gente! Eu já tinha visto esse livro por aí, mas não fazia ideia de que se tratava de uma distopia. Gostei demais da ideia e fiquei encantada pela história da protagonista. Sua resenha está excelente. Coloquei o livro nos meus desejados agora mesmo.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/
    Participe dos SORTEIOS de Natal que estão rolando lá no blog!

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  5. aaadorei sua resenha, me deixou muito curiosa, realmente é um livro que nos traz muita reflexão, seria um sonho ter um governo que trabalha para o bem do ovo, seem corrupção, porem isso jamais funcionaria, pois sempre estamos sujeitos a errar... mas gnt, só eu acho que compaixão é um tipo de perfeição tbm? um sentimento de que tem um otimo coracao... fiquei muito interessada no livro, pretendo ler !!

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  6. Conhecer a escrita da Cecilia é um desafio que eu quero cumprir em 2017.
    Já estava namorando a capa desse livro há dias, mas depois dessa sinopse é da sua resenha eu já tô louca querendo comprar. Aliás, tô curiosa por causa dessa protagonista, ela é tão diferente (sem contar com esse enredo que parece ser arrasador!)

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  7. Oi Mirelle, passeando aqui pelo seu blog me deparei com essa resenha que ainda não tinha lido -pode isso? (rsrs). Que história é essa menina, conforme fui lendo a explicação do mundo onde Celestine vive, com tudo isso de Perfeito e Imperfeito, fui percebendo que preciso ler o mais rápido possível!
    Beijos
    Quanto Mais Livros Melhor

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