Resenha - Uma vida no escuro

Sinopse: "Com uma carreira consolidada e um apartamento recém-comprado em Londres, parecia que a única preocupação de Anna Lyndsey seria a manutenção de seu padrão de vida. No entanto, o que começou como um desconforto diante da tela do computador revelou-se uma grave sensibilidade a qualquer fonte de luz. Em pouco tempo, trabalhar tornou-se inviável, e mesmo atividades corriqueiras passaram a causar dores lancinantes. Conforme os sintomas foram se agravando, ela precisou abrir mão da casa, da independência e de qualquer possibilidade de planos futuros. Diante do relato de Anna sobre seus dias na escuridão nesta memória autobiográfica, é impossível para o leitor não se perguntar o que de fato é fundamental. Se quase todas as opções fossem retiradas, das mais corriqueiras às mais preciosas, o que faria a vida continuar valendo a pena? Em uma situação em que as luzes e telas que deveriam significar segurança e comodidade são um perigo iminente, não seria de se admirar que Anna entrasse em depressão ou até mesmo cometesse suicídio. No entanto, ela nos revela uma existência com mais nuances do que se poderia esperar de alguém mergulhado no mais profundo breu. Entre audiolivros, jogos de palavras e formas inusitadas de banir os raios de luz, Anna descobre meios de afastar os pensamentos deprimentes e perseverar mesmo com a incerteza de sua condição. Com seu contato com o mundo externo restrito à família, ao marido e às raras visitas, ela aprende a valorizar cada segundo de remissão da sua sensibilidade, admirando a natureza, a rotina e até as tarefas domésticas de uma perspectiva completamente nova."
Anna Lyndsey tinha uma vida perfeita: gostava de seu emprego, havia acabado de comprar o apartamento ideal e amava o namorado. Seu conto de fadas havia encontrado o final feliz quando ela ainda estava com os seus trinta e poucos anos e teria muito mais para aproveitar. Porém, Anna foi pega de surpresa pela vida e viu o seu mundinho virar de cabeça para baixo em pouco tempo.

Tudo começou com uma ardência que ela sentia no rosto, ocasionalmente, quando estava em frente do computador. Decidiu ir ao clínico geral, pois julgou que em apenas uma consulta resolveria, porque não queria perder o seu precioso tempo já que não podia cogitar a possibilidade de deixar de ser a pessoa tão ativa que gostava de ser. Em poucos meses, no entanto, essa irritação não só se tornou mais forte e constante, como se espalhou por todo o corpo e apareceu até mesmo diante da luz natural e por baixo das roupas que ela usava.

Diagnóstico: Dermatite Seborreica Fotossensível.

Sua pele passou a não tolerar o mínimo contato com a luz, fosse ela artificial ou advinda do sol, fosse de uma boca de fogão acesa, ou do simples brilho de uma tela de smartphone. Anna precisou renunciar ao seu emprego, ao seu apartamento, à liberdade, à independência, e a tudo o que ela havia conquistado tão jovem, que a fazia sentir-se afortunada.

Anna agora vive na total escuridão.

Querem saber o que acontece? Então corram para ler o livro!

***

Nunca me emocionei tanto quanto agora, enquanto escrevo essa resenha para vocês. Antes de eu lhes falar o quão incrível é esse livro, vamos conversar sobre como ele veio parar na minha estante. Embora já tenha lido não-ficção antes, não tenho o costume de ler biografia, para ser mais exato, e pelo que me recordo essa foi a terceira que li na vida, por isso eu estava muito incerto quanto a ler essa obra ou não. Então o que eu fiz? Atazanar a Mirelle, óbvio!

Eu li resenhas e consultei a avaliação de Uma vida no escuro no Skoob e em ambos os casos o que encontrei não parecia ser promissor. Enchi a Mirelle com as minhas dúvidas e medos quanto a chance de me decepcionar com a leitura, até que ela veio com a brilhante ideia: “Por que você não lê um trecho gratuito disponibilizado no site da Amazon para ver o que acha?”. Santa Mirelle! Eu o fiz e não tardei a me decidir: preciso ler esse livro!

Por que fiz essa introdução? Porque mais uma vez deixei meus medos e a opinião dos outros decidirem se eu gostaria de uma história ou não, e sei que outras pessoas abrem mão de ler grandes títulos por isso também, então relato essa experiência para que, assim como eu, vocês aprendam a não formularem um pré-julgamento e lerem aquilo que tiverem vontade. Pesquisar sobre uma obra antes de adquiri-la é bom? É. Ajuda? Ajuda, mas vocês não podem se deixar levar por isso, já que o fato de Fulano não ter curtido não quer dizer que vocês não curtirão, e vice-versa.

Embora seja um livro de não-ficção, como eu falei acima, Uma vida no escuro é escrito como um roman à clef, em primeira pessoa. A autora relata sua trajetória como se conversasse com o leitor e, acreditem, tagarelar é algo que a Anna adora fazer. Ela ama a oportunidade de dialogar com outras pessoas para poder descobrir coisas novas.

Anna vive completamente no escuro, sua sensibilidade à luz é tamanha que ela precisa ficar no breu para que sua pele não arda em chamas. Mesmo para comer, Anna precisa sair de seu casulo às pressas, alcançar qualquer coisa na cozinha e voltar para o quarto correndo. Não importa se é de noite e todas as luzes da casa estão apagadas, qualquer brilho a incomoda.

Nós acompanhamos passo a passo da vida da autora, desde quando ela era uma pessoa comum, passando pelos primeiros indícios de sua enfermidade, até chegarmos aos últimos momentos antes da publicação desse exemplar. Como são muitos detalhes apresentados - levando em conta que tudo começou em 2004 e Uma vida no escuro só foi publicado em 2015 nos EUA - Anna optou por elencar apenas os pontos mais importantes.

Apesar de não possuir capítulos, a escrita é dividida em duas partes e dentro de cada uma a autora nos expõe momentos da sua vida em forma de tópicos, intercalando entre passado e presente de forma que a leitura e a compreensão de seu estado fluam da melhor forma possível. Há também itens onde Anna partilha conosco alguns dos sonhos que já teve, seus desejos e temores, e até jogos para se jogar no escuro.

Devido à sua condição a autora tem pouquíssimas atividades para desenvolver em seu dia a dia. Há períodos em que sua pele tolera uma certa luminosidade e então ela pode se dar ao luxo de ler uma revista ou sair para uma caminhada à noite - mas mesmo assim, fugindo das luzes dos postes e dos faróis dos carros -, e quando Anna precisa ficar na escuridão completa, isso pode durar até meses. 

Segundo a autora, há um vasto acervo de pesquisas sobre sensibilidade à luz, o problema é que não existe nenhum material sobre a cura ou algo que ajude os enfermos a viver com tamanha restrição. Por esse motivo ela divide conosco o máximo de informações que pode a respeito do que aprendeu, não só para conhecermos mais sobre sua rotina, como também para que outras pessoas que estejam em uma situação semelhante a sua tenham ideias de outras coisas para fazer.

Sobre os demais integrantes do livro, destaco aqui a participação do Pete, namorado da Anna. A mãe e o irmão de Anna lhe dão muita força, mas o que esse cara faz não tem igual. Li em uma resenha em que criticaram o Pete dizendo que ele é perfeito demais, muito paciente e compreensivo e que por isso não tem graça. Antes de tudo vou relembrá-los de que estamos falando de uma trama de não-ficção, de um relato real! Não estamos tratando de um problema como uma traição ou de que a Anna está doente porque quer, e outra, o namorado dela sabia bem onde estava se metendo quando aceitou fazer parte disso.
 
Anna conversou com ele explicando a sua situação quando descobriu o diagnóstico e, várias vezes depois, fez questão de repetir, deixando claro que compreenderia se ele quisesse sumir e jogar tudo para o alto, mas, como eu disse, Pete não é mais criança e arcou com as consequências de permanecer ao lado dela. E não se iludam pensando que é fácil para Pete conviver com a doença de Anna, nós vemos isso no livro e a autora nos fala que, por mais maravilhoso que ele seja, Pete também precisa de momentos sozinho para se recuperar da rotina insana que a vida dos dois se tornou.

Voltando ao assunto já levantado, também me deparei com comentários sem sentido falando que “O livro não tem emoção” e “A autora aceitou bem sua condição”. Estou quase certo de que os leitores se esqueceram, não sabiam ou não levaram em consideração de que que Uma vida no escuro é uma biografia, quase um livro de memórias, e não uma narrativa inventada para agradar a gente. 

É óbvio que a vida de Anna não é fácil, que muitos dos seus sonhos foram destruídos, e isso fica claro para nós quando nos deparamos com seus pensamentos mais profundos - aqueles que ela não quer que ninguém saiba - e vemos a barra que ela enfrenta diariamente. Todavia, como a Anna mesma disse: a doença não a mata, mas igualmente não existe cura, e sim, ela vive como uma prisioneira por toda a eternidade, e devemos levar em conta de que isso por si só é um martírio, é como se a gente fosse torturado lentamente pelo resto de nossa existência. Entretanto, quando temos que enfrentar desafios desse naipe, há aqueles que se tornam vítimas, e há quem tenta sobreviver da melhor forma que pode, e Anna com certeza está entre estes.

E para quem pensa que acabou por aqui, estão enganados. No desfecho não encontramos pontas fechadas, como o relato do seu falecimento ou da sua cura, pois Anna segue viva e lutando um dia após o outro.

Só posso terminar essa resenha dizendo que amei o estilo da escrita da autora. O texto é leve, apesar do conteúdo explanado, e bem explicado; fazendo com que a leitura flua. A história de vida da Anna é incrível e todos deveriam conhecê-la para aprender a desfrutar das mais singelas conquistas - como poder atravessar a porta da rua e sentir o cheiro da noite - e a ter garra para vencer os desafios do dia a dia.
 
Uma Vida no Escuro - Anna Lyndsey
Editora Intrínseca
248 páginas
Comprar: Saraiva / Amazon
Nota 5

6 comentários

  1. Oi Laplace!

    Juto que quando vi essa capa, achei que fosse um livro da Gillian Flynn! rsrsrsrs Vai dizer que não lembra as capas dos livros dela? O.o rsrsrsrs

    Adorei sua resenha, fiquei curiosa com o enredo. É um tipo de história que não vemos por aí.
    Vou adicioná-lo na minha lista de desejados!

    Bjo bjo^^

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    1. Oi Ana! Obrigado.
      A capa lembra mesmo os livros da Gillian. kkkkk
      A história da Anna é sensacional, antes dela eu só havia ouvido falar de um caso de sensibilidade à luz, e mesmo assim foi à luz natural, nada comparado ao caso dela.
      Você não vai se arrepender de adicioná-lo à sua lista de desejados. ;)

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  2. Nossa,a história da autora me deixou mega curiosa. Adicionando mais um para a wishlist :]

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    1. Fiquei bastante curioso também quando a descobri, acho que você não vai se arrepender de lê-la. :)

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  3. Nossa eu não conhecia o livro mais achei a capa linda e a história mais linda ainda.
    Ainda bem que você se arriscou nessa leitura e pode vim aqui compartilhar com a gente, com certeza vou acrescentar na lista de desejados.

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    1. A história e a capa são lindas mesmo Naiara, e a capa tem uns pontos luminosos que brilham ao contato com a claridade, é lindo. Acho que você vai gostar da leitura. ;)

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