Resenha - A Escolhida

Resenha - A Escolhida
Sinopse: "Órfã e portadora de uma deficiência, Kira precisa enfrentar um futuro assustadoramente incerto. Vivendo em uma civilização que descarta os mais fracos, ela sofre hostilidade dos vizinhos, que a acusam de ser inútil para a comunidade. Quando é chamada a julgamento pelo Conselho dos Guardiões, Kira se prepara para lutar pela vida. Mas, para sua surpresa, os autoritários chefes já têm outros planos e a encarregam de uma tarefa grandiosa: restaurar os bordados de uma túnica centenária que contam a históriado mundo. Escolhida por seu talento quase mágico para bordar, a jovem fica radiante com a honraria. Quando dá início ao minucioso serviço de investigação do passado, ela depara com uma série de mistérios nas profundezas do universo que achava conhecer tão bem. Confrontada com uma verdade chocante, Kira precisará tomar decisões que mudarão sua vida e toda a comunidade. Em A escolhida , Lois Lowry traz ao leitor personagens e cenários distintos de O doador de memórias, mas que complementam a sensacional distopia e abrem um novo horizonte de reflexão para a tetralogia."
ALERTA! Esta resenha pode conter spoilers de O Doador de Memórias. Leiam por sua conta e risco!  

Kira deveria estar morta por ter nascido com uma perna torta, como acontecia com todos os bebês que vinham ao mundo imperfeitos. Esses nascituros tinham a sina de serem encaminhados ao Campo de Partida, antes do seu espírito ser vinculado ao corpo, para serem devorados pelas feras. Mas não foi o que lhe aconteceu.

Sua determinação em viver, segurando o dedo de sua mãe, Katrina, fez com que a mesma preservasse a vida da filha, não deixando que levassem Kira e prometendo que ela não seria um fardo para si ou para a comunidade devido à sua condição especial.

Porém, após a morte da mãe, Kira agora está sozinha, uma vez que não teve a oportunidade de conhecer o pai, que foi devorado pelas feras antes de ela nascer, e se encontra desamparada, já que não tem nem mesmo onde morar, pois o casebre de Katrina foi transformado em cinzas para impedir que a doença que a matou contaminasse outras pessoas.

Não resta nada a Kira além de sua perna defeituosa, e ela não sabe qual será o seu futuro, nem ao menos se terá um, tendo em vista de que sem ninguém para protegê-la, o mais provável é que a garota tenha o fim que lhe foi designado desde o princípio.

Querem saber o que acontece? Então corram para ler o livro!

***

Embora não tenha gostado muito de O Doador de Memórias - apesar de ter amado a sua adaptação cinematográfica, sim, vocês não entenderam errado -, resolvi encarar os volumes seguintes desta tetralogia e, acreditem, as minhas expectativas para com A Escolhida não estavam baixas. Depois de acompanhar o capítulo inicial da obra no final de O Doador de Memórias, decidi ir atrás de resenhas da mesma no Skoob e fiquei indignado com as críticas que vi, porque A Escolhida me parecia bom. Portanto, resolvi dar uma chance à Kira e não me arrependo nem um pouco disso.

Preciso começar dizendo que o livro é muitooooo bom, de verdade! Terminei de lê-lo no começo da noite em que escrevo essa resenha e estou até agora tentando compreender como tanta gente pode ter ficado insatisfeita com essa leitura.

Ainda que A Escolhida também componha a tetralogia criada pela Lois Lowry, ela não possui nenhuma relação evidente com o seu predecessor. Por mais que ambos se passem no mesmo mundo devastado pela humanidade, foram elaborados em cenários diferentes e têm outros personagens.

No entanto, se nos esforçarmos o bastante encontraremos semelhanças na construção do enredo das duas obras. Enquanto em O Doador de Memórias os fracos são descartados em Alhures e Jonas, o protagonista, tinha a capacidade de ver além; em A Escolhida, os defeituosos são mandados para os Campos para serem aniquilados pelas feras e a personagem principal da vez tem uma incrível habilidade de criar bordados belíssimos. E vou parar por aqui para não soltar spoilers. Acredito que a autora tenha escolhido se desviar da trajetória traçada por Jonas para dar vida à Kira por uma boa razão, e imagino que lá na frente ambos os textos se conectarão.

Uma das grandes críticas com as quais me deparei nas resenhas que vi desse livro foi sobre o fato de ele não ser uma continuação direta de O Doador de Memórias. Bem, penso que isso não é um motivo plausível para se depreciar uma história. O fato de os dois volumes fazerem parte da mesma série não significa que precisem estar completamente afinados um com o outro. A exemplo disso temos Ordem, do Hugh Howey que, embora se trate do andamento de Silo, acompanhamos o desenvolvimento de outros personagens ocorrido em períodos diversos. Mesmo assim, arrisco a dizer que Ordem é tão sensacional quanto Silo, isso se não for melhor. 
 
Na minha opinião, os personagens nessa sequência estão muito mais desenvolvidos, vivazes e melhores trabalhados
do que no exemplar anterior. Nesta trama, eles não foram privados das emoções e, por isso, Lois conseguiu explorar seus sentimentos mais aprofundadamente. Ademais, a autora inseriu elementos novos no contexto, como a desigualdade social, já que várias pessoas vivem em condições sub-humanas. Assim, ela foi capaz de tecer um bom contraponto expondo a realidade dos mais afortunados e daqueles que são tratados como se não fossem ninguém.
 
Outra questão fortemente atacada nas críticas em que li se deu pelo fato de A Escolhida não ter um grande conflito em seu argumento. Mas analisando a estrutura das duas premissas percebemos que a autora se valeu da mesma fórmula. Explico: Se em O Doador de Memórias Jonas vai descobrindo aos poucos o que aconteceu no mundo em que vive para somente depois surgirem as perguntas acerca e a sua revolta; em A Escolhida Kira começa a se questionar sobre a sua nova situação apenas depois da morte da mãe. Vale lembrar que em ambos os casos o clímax que nos é apresentado não se refere às revelações feitas aos personagens, mas sim em como eles lidarão com as novas informações recebidas. Nesse sentido, a autora vai fornecendo ao leitor aos poucos algumas pistas para que ele, junto com Kira, enfrente o problema central.

Quanto ao final, uau, palmas para a autora. Tudo está muito diferente de quando começou e, por isso, não enxergamos mais os personagens de mesmo modo. Confesso que por um momento achei que a história ficaria muito em aberto, e, de fato, algumas pontas permaneceram soltas, mas tenho certeza de que a Lois tem planos traçados e nos dá uma ideia do que podemos aguardar nas próximas edições.

Só posso terminar dizendo que A Escolhida é um livro fantástico e deve ser lido com minúcia aos pequenos detalhes e interpretado como parte da tetralogia de O Doador de Memórias, e não como a sua extensão. Só assim o leitor verá o valor que a obra possui e enxergará o palco que está sendo montado para o show final que a Lois dará, para então interligar todos os pontos.
 
A Escolhida - Lois Lowry
Livro 02
Tetralogia O Doador de Memórias
Editora Arqueiro
192 páginas
Comprar: Saraiva / Amazon
Nota 5

8 comentários

  1. Oi Laplace, tudo bem? Ainda bem que você mencionou acima que o post continha spoilers do livro O Doador de Memórias, porque ainda quero ler.
    Depois volto aqui para conferir sua resenha.
    Beijos

    Quanto Mais Livros Melhor

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    1. Oi Priscila, tudo bem, e com você?
      Combinado, fico no aguardo de saber o que você achou. ;)

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  2. Já li "A escolhida" há algum tempo, mas entre todos e até agora com o Mensageiro, foi o livro que mais gostei e mais me impactou, pois no final nada é o mesmo.

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    1. Num é? Juro que não consigo entender como tanta gente criticou essa obra.

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  3. Eu assisti o filme Doador de Memorias e amei, a partir dai fiquei muito curiosa para ler o livro. Minhas expectativas quanto ao livro estão nas alturas, pois as resenhas que vi falara que o filme é ruim perto da obra.

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    1. Sério Naiara? Nossa, eu acho o filme tão melhor que o livro. kkkkk
      Não quero te desanimar, é porque também temos a questão de que o filme tem o trunfo das imagens, e por mais que seja ótimo imaginar as cenas a medida que lemos, ter a imagem pronta trazida pelo filme gera outra experiência, e acho que trabalharam isso muito bem na adaptação. Mesmo eu preferindo o filme, espero que você goste do livro.

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  4. Oi Laplace!

    Ao contrário de vc, gostei mais do livro O Doador de memórias. O filme foi bom, mas os detalhes que passaram batido no filme, foram melhores explicados no livro, ao meu ver.
    A Escolhida tbm foi uma surpresa para mim. Comecei a leitura achando que seria a continuação da história de Jonas, mas acabei me surpreendendo por gostar de Kira e sua história.
    Já estou com O Mensageiro aqui e será minha próxima leitura! Espero gostar tanto quanto gostei dos dois anteriores!

    Como sempre, ótima resenha!

    Bjo bjo^^

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    1. Oi Ana!
      Realmente tem detalhes que passaram batidos no filme, e algumas coisas estão lá sem explicação, e que não leu a obra não entende, mas eu me apaixonei pelo filme. kkkkk
      O Mensageiro é incrível, acho que você vai gostar.
      E obrigado. :)

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