Resenha - Holy Cow

Resenha - Holy Cow
Sinopse: "Uma aventura irreverente e itinerante com muita personalidade, e uma heroína quadrúpede que você não vai esquecer tão cedo. Elsie Bovary é uma vaca muito feliz em sua bovinidade. Até o dia que resolve sair sorrateiramente do pasto e se vê atraída pela casa da fazenda. Através da janela, observa a família do fazendeiro reunida em volta de um Deus Caixa luminoso – e o que o Deus Caixa revela sobre algo chamado “fazenda industrial” deixa Elsie e tudo o que ela sabia sobre seu mundo de pernas para o ar. A única saída? Fugir para um mundo melhor e mais seguro. Assim, um grupo para lá de heterogêneo é formado: Elsie; Shalom, um porco rabugento que acaba de se converter ao judaísmo; e Tom, um peru tranquilão que não sabe voar, mas que com o bico consegue usar um iPhone como ninguém. Munidos de passaportes falsos e disfarçados de seres humanos, eles fogem da fazenda e é aí que a aventura deles alça voo – literalmente. Elsie é uma narradora marrenta e espirituosa; Tom dá conselhos psiquiátricos com um sotaque alemão um tanto forçado; e Shalom, sem querer, acaba unindo israelenses e palestinos. As criaturas carismáticas de David Duchovny indicam o caminho para um entendimento e uma aceitação mútuos dos quais esse planeta tanto precisa."
Elsie é uma vaca. Seus dias resumiam-se a pastar por horas a fio, ruminar, fofocar com Mallory, sua melhor amiga, sobre os touros além da cerca, ser ordenhada e dormir confortavelmente o sono dos justos. Elsie nunca questionou a vida que levava na fazenda, ou o que o futuro lhe reservava, até decidir sair furtivamente do celeiro à noite para desbravar o terreno.

Foi quando conheceu o Deus Caixa, um objeto estranho e inanimado que os humanos idolatravam a ponto de ficarem hipnotizados em sua presença. O poderoso Deus Caixa mostrou à Elsie a crueldade a qual os animais eram costumeiramente submetidos.


"Primeiro, vi galinhas em gaiolas, fileiras e fileiras e mais fileiras de gaiolas. As galinhas estavam empilhadas, quase sem espaço para respirar. Não sou muito fã de galinhas, mas isso não é vida para ninguém. As coitadas quase não conseguiam se mexer, por isso as garras cresciam em torno dos arames das gaiolas e os seres humanos muitas vezes tinham de cortar os pés delas para tirá-las dali. Comecei a chorar lágrimas grandes e molhadas, que embaçaram e deram um efeito caleidoscópico àquilo que eu olhava, o que tornou tudo ainda mais surreal. Aí eles mostraram porcos, centenas e centenas de porcos, encurralados aos montes também. A situação deles não parecia tão ruim, porcos gostam de andar em bando, mas, mesmo assim, o lugar estava apinhado demais e era sujo e deplorável. Então eles mostraram as vacas. As vacas eram mantidas dentro de um enorme galpão, separadas por umas baias de metal bem estreitas. Mas isso não foi o pior. Porque o impiedoso Deus Caixa mostrou o que acontecia a elas depois: um homem levava uma vara de metal à cabeça da vaca, e de repente as pernas da pobrezinha cediam, e ela caía dura, morta. Assassinada. Uma após outra, dando um último suspiro, como se um interruptor estivesse sendo desligado, simples assim. Depois o Deus Caixa mostrou as carcaças sem vida das vacas sendo penduradas em grandes ganchos de metal e abertas, já sem o couro e desmembradas como num filme de terror, sangue para todo lado. O que mais me lembro é do sangue. Um homem sem rosto com uma mangueira lavando um chão banhado de sangue."

Não bastasse os homens terem prazer em separar famílias, matarem e comerem os animais sem dó nem piedade, ainda os transformavam em roupas, bolsas, luvas, bolas de beisebol e quaisquer outros artigos de luxo que lhes conviesse. Mas o Deus Caixa também mostrou à Elsie um lugar chamado Índia, onde as vacas não eram mortas ou comidas, ao contrário, eram endeusadas e protegidas. Desde então, Elsie elaborou um plano meticuloso de fuga, ela só não imaginava que teria parceiros nessa empreitada.

O porco, ou melhor, Shalom, não conseguia nem pensar na possibilidade de ser transformado em bacon ou ser enfeitado com uma maçã. Por ser judeu e saber o quanto eles odiavam os suínos, estava certo de que ficaria à salvo em Israel devido a hostilidade de seus habitantes para com a sua raça.

Tom, o peru, era raquítico feito um anoréxico e sua condição devia-se a iminência do Dia de Ação de Graças, tão conhecido por ter em seu cardápio perus apetitosos. Ele se agarrava a ideia de que, magrinho, ninguém o comeria. Porém, como não é possível prever o comportamento humano, preferiu se juntar à trupi e partir para Turquia, o país que carregava o seu sobrenome. Tom tinha certeza de que ninguém por lá comeria um conterrâneo seu.

Assim sendo, os três animais rumaram para a cidade e embarcaram numa jornada capaz de transformar as suas vidas e, quiçá, de todos que viessem a conhecer a sua história.

Querem saber o que vai acontecer? Então leiam!

***

Quando recebi este livro de ação do Grupo Editorial Record não dei a mínima. Não sou fã de livros de fantasia e achei uma baboseira ler um livro narrado por um animal, mas isso foi puro preconceito meu, literalmente. Bastou que eu começasse a pesquisar sobre a obra, sua temática e sua origem para o meu interesse se acender e, assim que comecei a ler, me entreguei totalmente a essa alegoria!

A escrita de David é surreal! Achei incrível o fato dele ter sido capaz de se colocar na pele de uma vaca, abordando um assunto tão polêmico e delicado, de maneira tremendamente divertida e diferente.

Narrado em primeira pessoa pela destemida, boa gente e sonhadora Elsie, vamos compreendendo melhor os sentimentos dos animais, como eles encaram a vida e o que pensam dos humanos. Já é comprovado que animais têm sentimentos, apesar de ainda haver a controvérsia de se eles têm consciência, mas pelo sim ou pelo não, me doeu na alma os trechos em que Elsie se revolta contra a gente e se sente traída por ver a vida de sua espécie ser arrancada, às vezes sem nenhum propósito.

Nesse sentido, compreendo os veganos quando dizem que, se amamos os animais, nossos bichos de estimação, como somos capazes de comê-los? De vesti-los? De usar a sua carcaça em nosso dia a dia? Isto além de ser completamente incongruente, tem cada vez mais causado um desequilíbrio no nosso meio-ambiente. Sabemos que nos primórdios os homens caçavam para se alimentar e, particularmente, não acho isso errado. A morte de um animal costumava ser feita de maneira digna e respeitosa e cumpria algum propósito, como o de sobrevivência.

Hoje, tudo está banalizado. Nós, que comemos carne, sabemos realmente qual a sua procedência? Temos a ciência da quantidade de estresse e hormônios contidos em sua essência devido ao sofrimento que tais animais passaram durante a vida e a morte? E aí, vocês comeriam os seus cachorros? Porque não há diferença entre um cachorro e uma vaca. Eu não comeria os meus gatos.

E não venham me dizer que comemos os animais porque somos carnívoros (não é verdade), ou porque precisamos deles como fonte de proteínas e ferro (bobagem também). Se alimentar do leite e da carne de outros bichos é um costume culturalmente imposto do qual muitos de nós não consegue se desgarrar, mas é possível, basta querer.

Entretanto, antes que alguém dê um chilique nos comentários, quero deixar claro que não estou aqui tentando dar lição de moral ou convencer ninguém a deixar de comer carne e se tornar vegano (pesquisem o que isso significa), até porque eu também ainda não consegui (ainda), mas vale o questionamento, vale suscitar o debate, afinal, algo precisará ser feito antes que a gente destrua o mundo.

Mas para quem ficou impressionado ou se sentiu ofendido com esta minha reflexão e tem certeza de que não gostará desse livro, não se aflija, o autor não expõe essas ideias de maneira contundente. Tudo é muito sutil e as críticas ficam nas entrelinhas, enquanto Elsie e seus amigos torcem para que vocês tenham compreendido o recado.

Talvez vocês estejam se perguntando como foi possível que três bichos se passassem por gente e viajassem como eles fizeram, julgando a trama ser de uma besteira só. Particularmente, achei essa sacada genial, pois o escritor nos deixou claro que só enxergamos o que queremos ver e que estamos cada vez mais alienados e cegos com tudo que existe ao redor do nosso umbigo.

Se isso não bastasse para que a obra tenha o seu valor, saibam que me surpreendi com a originalidade do texto de David, principalmente por esta ser a sua primeira publicação. Ora escrito em formato de roteiro de cinema, pois a editora de Elsie quer muito que a história se torne um fenômeno Hollywoodiano, ora contado em formato de registro de memórias, com revelações e pensamentos íntimos da vaca, também nos deparamos com um apanhado de cultura pop com a qual certamente vamos nos identificar.

Afora isso, ainda têm os personagens fofos que refletem os nossos medos e os nossos sonhos mais puros. Ao fazer um contraponto entre humanos e bichos, David tenta resgatar a bondade que existe em nós e nos mostra que, no fundo, todos somos iguais e devemos ser tratados com mais amor e respeito, e que nem sempre as coisas são como gostaríamos, mas que o importante é lutarmos por nossos objetivos e seguirmos em frente, dando o melhor da gente. 

E antes de terminar, aqui vale um pequeno adendo, para quem não sabe, David Duchovny é o famoso ator de Arquivo X, uma figura pública e famosa que botou o dedo na ferida e se posicionou contra muita coisa em sua fábula. Tinha muita curiosidade de saber se ele é vegano e se Holy Cow surgiu de sua preocupação acerca do consumo inconsciente e desenfreado dos animais e da degradação cada vez maior da conduta e postura do ser humano.

Para quem busca por um livro cheio de significados, para quem não tem medo de rever seus conceitos, para quem ama os animais e anseia por um mundo mais justo para eles, leiam Holy Cow, tenho certeza de que irão se apaixonar e dar boas risadas.

Holy Cow - David Duchovny
Editora Record
208 páginas
Comprar: Saraiva / Amazon
Nota 4

8 comentários

  1. Olá!

    Gostei da ideia do livro!
    parece ser bem bonitinho e divertido.
    Esse tema é bem interessante, pois os animais sofrem tanto e muita gente não dá a menor importância pra isso, só querem saber de comer e nem ligam para a dor que os bichinhos sofrem.

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  2. Nossa, que resenha maravilhosa! Eu ainda não tinha ouvido falar nesse livro, mas agora estou super curiosa. Ele parece ser mega diferente daqueles livro fictícios que a gente costuma ouvir falar por aí.
    Eu amo livros que nos cativam, nos prendem. Torna a leitura tão mais fácil e mágica! E esse livro tem essa cara, que nos faz refletir sobre se o que estamos fazendo é certo...

    xoxo
    Fora do Contexto

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  3. Oii Mirelle, tudo bom?
    Confesso que leria esse livro só por essa capa, já li algumas resenhas de Holy Cow e fiquei ansiosíssima para pegar nesse livro e saber mais da Elsie. Gostei da reflexão que o livro trás, imaginei que o livro não se tratasse sobre a breve vida de uma vava e gostei das reflexões que você fez também. Verdade, seja dita, que antigamente havia um ritual de respeito por tirar a vida de um animal, pois pode ser um animal, mas também é uma vida que muitas vezes não valorizamos devidamente :/
    Gostei bastante da resenha
    Estante de uma Fangirl

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  4. Oi Mi.
    Também tenho um preconceito terrível com livros dessa temática, e ao contrário de você não me arriscaria não.
    Mas gostei bastante da premissa do livro, me pareceu ser muito interessante, um livro narrado por uma vaca é certamente muito fora do comum.
    Boa Tarde.

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  5. Oi Mirelle!

    Eu já havia lido uma resenha desse livro e me diverti muito com a história dessa vaquinha. Eu não sou vegetariana, como carne, mas pouca e entendo que devemos mesmo repensar alguns hábitos!

    Parabéns pela resenha, fiquei ainda mais curiosa com a história!

    Bjo bjo^^

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  6. Mi,quero muito conferir essa história.Gosto muito de livros que os personagens são animais.Amei as críticas sociais e históricas apresentadas na resenha.Realmente pelo trecho observamos que a escrita de David é surreal.Realmente não sabemos a procedência daquilo que comemos.É verdade que cada vez ficamos mais alienados e cegos com tudo que existe ao redor do nosso umbigo.Sim,todos devem ser tratados com mais amor e respeito.Quero ler como lá disse,me apaixonar e dar boas risadas.Não sou vegetariana,mas nada contra.Beijos!!!

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  7. Oi Mi!
    A princípio,naõ me chamou a atenção...também não gosto de livros narrados por animais...mas quem sabe dou uma chance.

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  8. Mi, ameeeei a resenha!!!
    Achei a ideia genial, quero muito ler o livro.
    Infelizmente ainda não sou vegana, mas penso em ser, só preciso me libertar das delícias que me atraem kkkkkkkk
    bjoss

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