Resenha - Outro Dia

Sinopse: "Um dos mais inovadores autores de livros jovem adulto e o primeiro a emplacar uma trama gay na lista do New York Times, David Levithan retoma a sua mais emblemática trama em "Outro Dia". Aqui, a já celebrada — com várias resenhas elogiosas — história de "Todo Dia" é mostrada sob o ponto de vista de Rhiannon. A jovem, presa em um relacionamento abusivo, conhece A, por quem se apaixona. Só que A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Mas embarcar nessa paixão também traz desafios para Rhiannon. Todos eles mostrados aqui."
ATENÇÃO, esta resenha pode conter spoilers de Todo Dia. Leiam por sua conta e risco!  

Era pra ser um dia como outro qualquer. Rhiannon estava esperando seu namorado, o instável Justin, no estacionamento da escola, como sempre fazia, mas desta vez ele passou reto por ela. Rhiannon podia aceitar isso, como aceitava tudo que Justin fazia, só torcia para que ele não estivesse irritado com ela, porque isso nunca era bom.

Já dentro da escola, Rhiannon finalmente encontra-se com o namorado e ele parece diferente. Distante. Justin convida Rhiannon para fugir e os dois vão juntos para a praia. A garota está desconfiada dessa impulsividade dele. Ele sempre reclamava que ela fazia planos demais, então só poderia estar testando-a. Mas algo nesse teste parecia errado. Justin estava tão entregue, parecendo tão feliz por tê-la ao seu lado que, quando percebeu, Rhiannon estava experienciando o melhor dia de sua vida, tendo a inocente esperança de que da noite para o dia Justin havia mudado e se tornado o que ela tanto sonhava.

O problema é que no dia seguinte tudo ruiu. Justin voltou a ser o mesmo de sempre, tratando Rhiannon com tamanha indiferença. Parece que a chama que tinha dentro dele se apagou, mas Rhiannon deseja reacendê-la. Ela tenta fazê-lo lembrar do dia incrível que passaram juntos e reviver as emoções compartilhadas. Só que Justin não parece sentir o mesmo que ela. O garoto mal parece se lembrar do que aconteceu.

Confusa e aturdida com tudo isso, Rhiannon resolve seguir sua vida mais uma vez. Numa noite, em uma festa, seu caminho cruza-se com o de Nathan, que se diz ser o primo gay de Steve, um amigo próximo da garota. Ela e Nathan conversam bastante sobre tudo e uma conexão entre ambos surge ali. Os dois trocam e-mails e se correspondem durante um tempo, até Steve contar a Rhiannon que não tinha nenhum primo sequer remotamente parecido com o que ela falava de Nathan.

Sem entender o que acontecia, Rhiannon envia um e-mail para Nathan, querendo respostas. E aí que A entra em sua vida. A é um ser diferente. Todo dia ele acorda em um novo corpo e precisa viver a vida daquela pessoa por 24 horas. Era A que estava no corpo de Justin no dia que ele e Rhiannon foram à praia e a garota sentiu-se tão realizada. E o mesmo aconteceu com A. Algo em Rhiannon despertou um furor dentro dele e de alguma forma ele parece estar apaixonado por ela.

Rhiannon sabe que também tem sentimentos fortes por A. É difícil acreditar em toda essa história, mas ela sabe, no fundo do seu coração, que é tudo verdade. A transformou Justin no que ela sonhava por ele mesmo ser o que ela sempre desejou. Só que como amar e se entregar de coração a alguém que muda de aparência todo dia, e que poderá nunca estar por perto quando ela precisar?

Querem saber o que vai acontecer? Então não deixem de ler!

***

David Levithan é meu autor favorito e Todo Dia foi o seu primeiro livro solo lançado aqui no Brasil, em agosto de 2013. Confesso que, por receio, só fiz a leitura em fevereiro desse ano, mas, obviamente, me apaixonei completamente. Então, assim que Outro Dia chegou nas minhas mãos, tratei de passar na frente de todas as outras leituras e me joguei.

A escrita de Levithan é fluida, leve e envolvente. Acho que o autor é o único que já li que consegue tratar de diversos temas polêmicos de uma só vez e não deixar o livro pesado. Outro Dia, por exemplo, aborda relacionamento abusivo, o preconceito, o padrão imposto pela sociedade sobre quem devemos amar e como essa pessoa deve aparentar. Amo essa minuciosidade do autor.

A obra é narrada em primeira pessoa, dessa vez na perspectiva de Rhiannon. No começo, fiquei bem incomodado com a personagem. Rhiannon tem aquela personalidade apática de toda jovem que vive num relacionamento doentio. Sua vida resume-se a fazer o que vai deixar Justin feliz, mesmo que isso a magoe. A garota afastou-se dos amigos, que tentavam alertá-la sobre o comportamento submisso imposto por Justin, e ficou sozinha, aguentando os chiliques do namorado.

Só que quando A entra em sua vida, Rhiannon vai percebendo que não precisa se limitar ao que Justin tem a lhe oferecer. Pelo contrário. Pela primeira vez na vida ela se vê desejada inteiramente, de corpo e alma, tornando-se o cerne da vida de A. Aos poucos, Rhiannon vai abrindo seus olhos e notando o que está perdendo enquanto está presa a Justin. A partir daí foi impossível não torcer por sua felicidade.

O único defeito de Rhiannon, para mim, é a dificuldade que ela tem de receber o amor que A tem a oferecer, o que bate naquela velha tecla do estereótipo estabelecido pelo senso comum como um impeditivo para este relacionamento. A é um ser que viaja entre corpos e nem todos eles serão do sexo masculino ou particularmente atraentes. O que deveria importar para ela é A, a pessoa que está habitando o corpo, não o físico em si. Porém, Rhiannon criou uma imagem de A em sua mente e quando a compleição física em que ele está não corresponde a essa efígie, ela se decepciona e não consegue deferir a atenção que A merece.

Não há outros personagens que realmente se destaquem na trama. Justin é um verdadeiro babaca e o pior tipo de pessoa que existe. Machista, racista, homofóbico... David conseguiu construir um personagem extremamente odioso, mas foi através dele que muitas lições foram dadas. Uma das minhas passagens favoritas do texto é quando Rebecca, a melhor amiga de Rhiannon, dá um discurso sobre as atitudes racistas de Justin.

"- Ah, dá um tempo, Rebecca. Você não estava lá. Você não viu a vadia negra em ação... foi impagável.
- Agora ela é a "vadia negra"? É sério, Justin? (...)
- Rebecca, você não estava lá. E eu posso chamar alguém de vadia negra se ela for negra e agir feito uma vadia. São fatos.
- Não fala merda! Ela ser negra não tem nada a ver com sua história, seu babaca. (...)
- Então não tem problema você, do nada, me chamar de babaca?
- Um: faz anos que te chamo de babaca. E dois: note, por favor, que não estou chamando você de babaca branco porque, embora eu tenha certeza que o fato de ser branco aumente sua arrogância, estou disposta a ignorar isso para nos concentrarmos no fato de que você é um babaca universal neste momento."

O final do livro foi emocionante e Levithan conseguiu mais uma vez me surpreender. Pelas últimas páginas, acredito que teremos uma sequência dessa história tão maravilhosa, mas o autor ainda não se pronunciou a respeito. Tivemos um fechamento do enredo, mas uma pequena pontinha em aberto dá a esperança de uma continuação.

A edição física do exemplar está mais uma vez caprichada. A capa é simplesmente maravilhosa, uma adaptação da original, e segue o padrão do livro anterior. A diagramação é simples, as folhas são amareladas e a fonte é grande. O único detalhe que me incomodou foi a revisão. Achei muitos erros durante a leitura - desde a pontuação até palavras escritas erroneamente. Esperava mais.

Outro Dia é uma obra maravilhosa, que entrou para o meu hall de favoritos e provou o porquê de eu amar tanto David Levithan. Com certeza recomendo essa leitura. Se joguem, não há como se arrepender! 

Outro Dia - David Levithan
Livro 02
Editora Galera Record
322 páginas
Comprar: SubmarinoAmazon
Nota 5

4 comentários

  1. Leonardo, eu ainda não li nenhuma obra de David Levithan, mas tenho uma curiosidade enorme de ler Todo Dia pois é um livro muito bem recomendado e elogiado.
    Sobre o livro Outro Dia, esta é a primeira resenha que leio a respeito. Gostei muito de saber que a narrativa e o enredo continuam tão bons quanto o primeiro e tanto lhe conquistou, e tenho certeza de que esse romance me encantará tão quanto. Gosto quando o casal se apaixona e parece que esse sentimento pode superar todos os obstáculos que têm de enfrentar.
    Beijos.

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  2. Oi Leonardo!

    Eu tenho o primeiro livro, mas ainda não o li. Nunca li nada do autor, mas tenho vontade, sempre leio resenhas ótimas sobre seus livros.

    Gostei muito da capa e da sua resenha. Espero poder ler o primeiro volume em breve para descobrir se tbm virarei fã!

    Ótima resenha!

    Bjo bjo^^

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  3. eu ainda não li nenhum livro do Levithan, mas eu fico impressionada em relação que todos elogiam a questão de como ele consegue abordar temas pesados de uma forma bonita. mas, mesmo assim, não sei ando meio fugindo de livros mais pesados em especial esse de relação abusivas, já tive amigos q tiveram esse problema e é muito complicado, ai sem conhecer a personagem eu já fico com um misto de pena+raiva dela, então fica complicado ler

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  4. Eu ainda não li Todo dia.
    Mas pelo que você descreveu parece ser muito bom, é difícil para pessoa que vivem em relacionamentos abusivos, que aquilo que está acontecendo não é normal, não é por que ele não te bate que isso significa que ele não está te maltratando, e fazendo o que não deveria.
    Levando em consideração o fato que ao tentar ajudar aquela pessoa, muitas vezes saímos como errados.
    Eu nem li outro dia, mas ja estou com raiva da personagem, mas quem sabe como funciona o coração dos outros?
    Não eu com certeza, eu acredito que essa leitura vá ajudar muitas pessoas que vivem em relacionamentos parecidos, a acordar para a vida.
    Boa Noite.

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