Resenha - Apenas um dia

Resenha - Apenas um dia
Sinopse: "A vida de Allyson Healey é exatamente igual a sua mala de viagem: organizada, planejada, sistematizada. Então, no último dia do seu curso de extensão na Europa, depois de três semanas de dedicação integral, ela conhece Willem. De espírito livre, o ator sem destino certo é tudo o que Allyson não é. Willem a convida para adiar seus próximos compromissos e ir com ele para Paris. E Allyson aceita. Essa decisão inesperada a impulsiona para um dia de riscos, de romance, de liberdade, de intimidade: 24 horas que irão transformar a sua vida. Apenas um Dia fala de amor, mágoa, viagem, identidade e sobre os acidentes provocados pelo destino, mostrando que, às vezes, para nos encontrarmos, precisamos nos perder primeiro... Muito do que procuramos está bem mais perto do que pensamos."

O Teen Tour pela Europa talvez não tenha sido o presente de formatura ideal dado pelos pais de Allyson. Apesar de estar na companhia de sua melhor amiga, tudo parecia cansativo e muito igual. Allyson viveu a vida toda numa bolha, portanto, correr riscos não fazia parte de sua agenda. Nas noites europeias, enquanto os companheiros de tour e sua melhor amiga aproveitavam em pubs locais onde a idade legal permitia que bebessem, Allyson preferia ir para o hotel, ler um livro e descansar para a maratona do dia seguinte. Um verdadeiro desperdício de viagem para a Europa.

Mas, talvez a despretensiosa ideia de Mel, melhor amiga de Alysson, acabasse dando um novo rumo para as coisas. O tour estava em Stratford-upon-Avon, cidade mundialmente conhecida como o lugar de nascimento de William Shakespeare, e o sol castigava o grupo enquanto aguardava na fila pela chance de entrar no Royal Shakespeare Theatre. Mel decidiu fingir estar tendo uma insolação para que ela e a amiga pudessem se desvencilhar da turma e, pela primeira vez, fazer seu próprio programa cultural.

E foi assim que elas foram parar em um parque, mais especificamente na plateia do grupo Will Guerrilheiro, que encenava a peça Noite de Reis. Nenhuma das duas se arrependeu da mudança de planos, muito menos Alysson, ao ver o garoto que havia lhe chamado a atenção interpretando Sebastian apaixonadamente e lhe oferecendo olhares até a peça terminar e ele sumir na multidão.

Isso deixou Allyson um pouco desapontada, mas o que mais ela esperava? Certamente ela não teria a coragem para abordá-lo, pois vivia dentro de sua zona de conforto e segurança, e a fuga para o parque já tinha sido uma grande aventura para os seus padrões. Desta forma, as duas amigas se despediram do grupo no dia seguinte e partiram para Londres, onde lá permaneceriam por três dias na casa de familiares da Mel.

No trem em direção a Londres, Allyson encontrou o garoto que interpretou Sebastian no vagão-restaurante e eles acabaram tomando seu café da manhã juntos.  O nome dele era Willem, era holandês e viajava o mundo sem amarras. Um legítimo mochileiro que não possuía destino certo ou hora definida para chegar ou partir. O extremo oposto de Allyson, por assim dizer, o que o tornou ainda mais fascinante para ela.

Quando desembarcou em Londres e observou o mural de partidas dos trens, pela primeira vez Allyson não ficou ansiosa para voltar para casa. Após a breve conversa com Willem sobre sua liberdade, ela queria viajar. Talvez Paris, já que este trecho da viagem precisou ser cancelado devido ao mau tempo? Apesar de estar viajando com destino à Holanda, após anos longe de casa, Willem decidiu mudar de ideia: se Allyson queria tanto ir a Paris, por que ele também não podia ir? Willem estava disposto a embarcar nesta aventura.

Por impulso, Alysson tenta fazer algo diferente e espontâneo, topando passar um dia em Paris com o garoto que acabou de conhecer e que sequer sabe seu nome. Willem a chama de Lulu e um alter-ego pode ser tudo o que a garota precisa para se libertar. Mas será seguro passar um dia em um local desconhecido com um estranho? E 24 horas seriam o suficiente para modificar 18 anos de hábitos regrados? Talvez a equação acaso + impulsividade seja capaz de mudar tudo.

***

Shakespeare, viagens e um romance inesperado: Gayle é decididamente uma chefe de cozinha no quesito "conhecer os ingredientes certos para um livro delicioso"Apenas um dia é o tipo de obra para ser saboreada, internalizada e jamais esquecida. Para pessoas como o personagem Willem, naturalmente impetuosas, que se jogam na vida sem medo do amanhã, a história é interessante por demonstrar o outro lado da moeda e o quanto é difícil para alguns se soltarem e se deixarem ir. Por outro lado, para quem possui o perfil mais sistemático como o de Allyson, temos aqui um maravilhoso guia sobre as vantagens e as desvantagens de se sair da zona de conforto.
“Posso ter apenas 18 anos, mas já me parece bem óbvio que o mundo está dividido em 2 grupos: o dos que fazem e o dos que observam. As pessoas com as quais as coisas acontecem e o restante de nós, que meio que se arrasta sobre as coisas.”
Allyson é uma pessoa metódica, desde a arrumação da mala à vida pessoal. Ela possui todo o seu futuro planejado e vive equilibrando-se nesta linha para que nada saia errado. E é então que aparece um cara que balança as suas estruturas, mostrando que existe um horizonte lindo a ser explorado fora do caminho de terra batida que ela está seguindo. Allyson não pode evitar se deliciar com este momento fora de rota.

Willem é um aventureiro. Ele é livre e vive a vida ao sabor do vento. Além de gentil, engraçado e impulsivo, é o tipo de pessoa que olhamos e pensamos "queria ter coragem de ser como esse cara”. Talvez para uma pessoa regrada como Allyson, este fator, além da beleza física do garoto, tenha aumentado e muito o poder de atração dele sobre ela.

Quando comecei a ler Apenas um dia, pensava que o livro contaria a história dos personagens até o fim do “tal dia” que os dois passariam em Paris, mas não. O enredo é dividido em duas partes, uma que vai até o fim da aventura parisiense, e outra que relata o ano após o retorno de Allyson para casa.  

Ainda que tenha ficado momentaneamente decepcionada com os relatos acerca do retorno dela, comecei então a perceber que o objetivo de Gayle não era escrever um simples romance que começa em um dia de impulsividade e aventuras inesquecíveis. O livro vai muito além disso. Ele fala de amadurecimento, de perdas e ganhos e do quanto um momento pode alterar uma pessoa mesmo que ela lute contra isso.

Quando Allyson retorna para os Estados Unidos, ela se depara com sua mesma vida sem graça. Independentemente de estar começando a faculdade em um lugar novo, algo não está mais nos eixos, o que passa a deprimi-la, já que a garota voltou para a vida que havia planejado antes de experimentar a sensação de ser livre.

Willem deu a ela a oportunidade de, pela primeira vez, ser ela mesma e não se preocupar em se enquadrar em um padrão preestabelecido pela sociedade. Allyson pôde correr riscos, ser honesta sobre o que pensava e abandonar a bolha de ser o que os outros esperavam que ela fosse. É difícil voltar ao seu “eu” anterior depois disso.  É como aquela velha calça jeans que você sempre usou e achou confortável, mas que agora não serve mais.

Esta é sem dúvidas uma história belíssima sobre como nem tudo é o que parece, sobre não se tirar conclusões precipitadas e sobre o acaso e como ele pode mudar nossas vidas completamente. Como sou apaixonada pelo acaso, por viagens e por Shakespeare, esse livro me fisgou direitinho.

A capa, à primeira vista, me pareceu muito sem graça, mas ao ler o livro entendi que ela tem relação com a história. Mesmo assim, ainda penso que poderia ter sido mais atraente. Não imaginava uma trama tão deliciosa por trás dela. A edição é simples, com texto em espaçamento duplo e a narrativa ocorre em primeira pessoa no tempo presente, pelo olhar da Allyson.

Fiquei super orgulhosa com a evolução da personagem. Sei que não é fácil jogar tudo para o alto e recomeçar. Mentira, não sei, eu faço isso o tempo todo, mas entendo que a maioria das pessoas passa a vida inteira sem sair de sua zona de conforto por medo do inesperado. Trocar o certo pelo incerto é uma aventura para os corajosos. Entretanto, Allyson passa por um processo de autoconhecimento e sai do outro lado alguém muito mais forte. Gostei muito disso por se tratar de um romance simples sobre coisas comuns, porém mostrando uma personagem que encontra sua força quando nem sabia que a tinha antes.

Gayle (Graças a Deus!) já publicou lá fora o livro com a história na visão de Willem. Estou aqui em cólicas para pôr as mãos nessa obra logo e acho bom que ela tenha sido boazinha e nos contado o que acontece depois da última cena de Apenas um dia, caso contrário, irei surtar. Não que o livro não tenha terminado bem, mas eu pre-ci-so saber o que acontece depois. Sim, estou em um surto a la Hazel Grace lendo Uma Aflição Imperial. Gayle, seja boazinha. Sério!
 
Apenas um dia - Gayle Forman
Livro 01
Editora Novo Conceito
384 páginas 
Comprar: Saraiva

2 comentários

  1. Estou morrendo de vontade de ler "Apenas um dia" , Forman é super talentosa !
    Adorei "Se eu ficar" e estou na expectativa de "Para onde ela foi" já tenho o exemplar só tá faltando tempo para ler :)

    ResponderExcluir
  2. Dos livros da Gayle eu li "Se eu ficar" e "Para onde ela foi", confesso que gostei mais do último!! Apenas um dia parece ter uma boa história, eu adoro quando um livro termina nos deixa com uma ansiedade para ler o próximo volume. Esse livro tem todos os elementos para eu gostar dele. Viagens, Shakespeare, aventuras, amor... ai ai, quero ler logo!!

    ResponderExcluir