Resenha - Filme A Entrevista

Sinopse: "Dave Skylark (James Franco) e seu produtor Aaron Rapoport (Seth Rogen) conduzem o popular programa de TV sobre celebridades "Skylark Tonight". Quando descobrem que o ditador norte-coreano Kim Jong-Un é fã do show, eles marcam uma entrevista com ele na tentativa de conseguirem sua aprovação como jornalistas sérios. Mas quando Dave e Aaron se preparam para viajar à Pyongyang, seus planos mudam no momento em que a CIA os recruta, mesmo sendo os homens mais desqualificados possíveis, para assassinar Kim Jong-Un."

Faz 10 anos que Aaron Rapoport trabalha para o programa de televisão de Dave Skylark. Apesar de terem ficado muito amigos, e de Aaron ter conquistado sucesso, fama e dinheiro, ele está cansado de ser ridicularizado pelos seus outros colegas jornalistas que insistem em dizer que o que ele faz não é um jornalismo sério e de verdade.

Em crise, Aaron pede a Dave que eles comecem a abordar assuntos de maior relevância no programa, mas Dave só aceita quando Aaron promete não abandonar a produção do show. Quando Dave descobre que Kim Jong Un, o ditador norte-coreano mais temido dos últimos tempos, é um grande fã do seu programa, decide que esta é a oportunidade perfeita para entrevistá-lo e deixar seus inimigos morrendo de inveja. Não precisou de muito para que o show Skylark Tonight caísse na boca do povo e se tornasse motivo de piada, afinal, seria improvável que Dave fosse capaz de conduzir uma entrevista com seriedade.

Pouco antes de partirem para a Coreia do Norte, Dave e Aaron foram procurados pela CIA e designados a uma tarefa de suma importância: assassinar o Líder Supremo. O problema é que bastou Dave conhecer Kim para que ambos virassem melhores amigos. Dave estava certo de que o ditador não era tão mau assim, e estava pronto para mostrar ao mundo as outras facetas de Kim.

Revoltado com a estupidez de Dave, Aaron decide assumir a missão. Mas será que matar um ditador é realmente a melhor forma de fazer seu povo acordar para a realidade?

Querem saber o que vai acontecer? Então assistam!

***

Bom gente, acomodem-se, preparem a pipoca, porque essa resenha vai ser longaaaaa, já que tenho muito para falar.

A começar dizendo que eu nunca tinha ouvido falar neste filme até surgir todo o burburinho na internet sobre o vazamento de informações confidenciais da Sony. Para quem está por fora do assunto, deixe-me refrescar suas memórias, rapidamente.

Ainda existem muitas informações divergentes e especulações sobre o assunto, mas em suma, em novembro a Sony sofreu ataques de hackers denominados Guardiães da Paz que ameaçaram vazar informações confidenciais da empresa caso o filme A Entrevista fosse lançado. Em seguida, começarem a surgir pela net emails constrangedores trocados pelo auto escalão da companhia, folhas de pagamento, filmes, roteiros não divulgados, trailers, etc. 

Para piorar, o grupo disse que atacaria os Estados Unidos fazendo o 11 de setembro parecer uma piada caso A Entrevista ainda fosse ao ar. Com receio do ultimato se concretizar, a Sony anunciou que o lançamento da película estava cancelado. Os ataques cibernéticos foram atribuídos à Coreia do Norte, que negou, mas o líder do país deixou claro que considerou o filme A Entrevista um ato de guerra, já que não só o ridiculariza como mostra a sua própria morte.

No final do ano passado, a Sony decidiu voltar atrás e realizou o lançamento do filme diretamente na internet, através dos sites americanos e canadenses do Youtube Movies, Google Play, Xbox Video, dentre outros, faturando milhões logo no primeiro dia. Apenas algumas salas de cinema independente dos EUA se disponibilizaram a transmitir o longa como uma forma de se posicionarem contra o cerceamento da liberdade de expressão.

Bom, e foi justamente por causa dessa polêmica toda e da propaganda negativa que fizeram que fiquei com vontade de ver A Entrevista para descobrir se o filme era tudo isso que diziam.

Eu consigo compreender por que o líder norte-coreano ficou tão ofendido com o longa. Kim é retratado em boa parte como um garoto mimado, afetado e mandão, que é obcecado pelas futilidades norte-americanas e tem prazer em ostentar a sua riqueza, sem se importar minimamente com o sofrimento do seu próprio povo. Se isso não bastasse para irritá-lo, Jong Un é assassinado na trama, materializando na ficção o desejo imaginário de muita gente.

E, diga-se de passagem, sobre a cena da morte de Kim, que já não é mais novidade tendo em vista que a cena inclusive está circulando há meses na web, foi uma das mais fantásticas e mais bem elaboradas que já vi. Chega a ser emocionante, levando em consideração os efeitos especiais em câmera lenta e a trilha sonora atribuída ao momento.

Logo depois do longa ter vazado, começaram a surgir dezenas de críticas negativas rotulando-o como vulgar e indigno de tanta falação. Sinceramente, não creio que estas pessoas viram o mesmo filme que eu.

A Entrevista nunca teve a pretensão de ser um documentário ou um filme político. A ideia central aqui não é só deflagrar todos os problemas ocorridos na Coreia do Norte e alertar o mundo para o ditador que é perito em inventar mentiras que não servem para nada além de expor a própria nação ao ridículo, mas criticar veementemente a cultura americana e a alienação provocada pela mídia.

No longa nos deparamos com um apresentador de talk show que se tornou um fenômeno por explorar a vida e a intimidade de celebridades, alimentando a ignorância dos seus telespectadores. James Franco está simplesmente fantástico em seu papel. Dave é cativante, isto é inegável, mas é vítima da sua própria burrice. Talvez tenha sido a sua ingenuidade, ou a vontade de acreditar no que lhe era mostrado que o fez gostar de Kim.

Jong Un, por sua vez, quase conseguiu enganar a todos manipulando as coisas ao seu favor, exatamente como a mídia faz. Pensem nisso da seguinte forma, os meios de comunicação nos mostram o que queremos ver, e nós acreditamos no que queremos acreditar, mesmo que a realidade seja esfregada embaixo do nosso nariz.

É aí que entra Aaron na história. Ele é aquele personagem que percebe que algo está errado, mas não sabe exatamente como agir. Aaron é o contrapeso de Dave, e em determinado momento chega a ser apresentado como o vilão da história, já que é o único que quer levar o plano de assassinato até o fim. Exatamente o que acontece quando surge alguém querendo nos fazer acordar e o rechaçamos porque queremos continuar vivendo num mundo de ilusão, muito mais confortável.

Ouvi gente dizer que A Entrevista apenas repetiu a fórmula Hollywoodiana de mostrar os americanos como mocinhos e heróis da história que resolvem meter o dedo onde não são chamados e decidem as coisas com as próprias mãos. No caso do longa, invadir outro país e exterminar o seu líder porque consideraram necessário, ressaltando a supremacia de sua nação.

Ok, foi exatamente isto que o filme fez, mas de maneira irônica! Gente, James Franco e Seth Rogen justamente tiraram um sarro disso, de maneira escrachada, e ainda deixaram um belo recado por meio de uma fala de Sook sobre como não se deve agir. Já caiu por terra a necessidade de interferência constante do país norte-americano em outros territórios. A película deixa claro que não é matando um líder que se faz com que o povo oprimido por uma ditadura belicista e autoritária acorde e lute pelos seus direitos.

A única maneira de fazer isso acontecer, de maneira eficiente, é por meio das palavras, que podem ser tão nefastas e eficazes quanto uma bomba nuclear. E é justamente através desse artifício que Dave arrasa em sua entrevista, transmitida ao vivo e internacionalmente, ao expor o Líder Supremo, mostrando-o como um mero mortal em frente à sua população que o venerava como Deus. Este foi um dos momentos mais significativos da trama. 

Beleza, o enredo contém muitos momentos de humor? Sim, mas esta é a maneira mais antiga de se criticar algo, basta saber ler nas entrelinhas. Falando nisso, não posso deixar de citar as inúmeras referências à trilogia do Senhor dos Anéis que foi hilária, mas que ao mesmo tempo fez uma analogia sábia aos sistemas de governo arbitrários e às relações de poder e amizade.

A Entrevista é um filme inteligente, cheio de críticas, muito engraçado, com um elenco de peso e digno de interpretações memoráveis, com efeitos especiais únicos, numa mistura de Tarantino e Michael Bay, em sua direção de Sem Dor, Sem Ganho. Perfeito para quem quer dar boas risadas, mas ao mesmo tempo está aberto para discutir coisas mais sérias.

Título original:  The Interview
Roteiro: Dan Sterling, Evan Goldberg e Seth Rogen
Direção:  Evan Goldberg e Seth Rogen
111 minutos
TRAILER


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